segunda-feira, 27 de junho de 2011

Memórias da Infância (5) - Dos Medos e Outras Histórias

Realidades X  Lendas

Nos arredores da nossa rua "Cônego Leão Fernandes", na rua Mipibu, morava uma velha senhora, numa velha casa, que criava um milhão de gatos. Chamava-se Dona Biró, e a gente tinha um certo medo dela. 


O medo fazia parte da nossa infância, mas não como uma coisa terrível. Algo meio cultural. A gente até gostava de passar por lá pra "sentir" esse medo, ou tentar chatear a velha.


http://vivianevguimaraes.blogspot.com/2010/04/gatos.html
Tinha também uma personagem em Natal que diziam que comia o fígado das crianças.  Quando alguém inventava de "fugir" de casa o pessoal gritava "lá vem a Viúva Machado", e voltávamos correndo pra casa! Eu, pelo menos, vinha que vinha "embalada"...

Escutávamos também umas tantas estórias de almas, contadas pelas empregadas. Apesar do medo, sentávamos todos pra ouvir... E, paradoxalmente, gostávamos desses momentos! O medo terminava "nos unindo"!
No meio dessas, tinha uma "lenda" de uma mulher que era tão má, que virou cobra ao morrer, e tava enterrada no cemitério de outra cidade próxima. Mas a casa dela, que ficava nos arredores, grande e imponente, me metia um certo pavor ao passar por lá... Ai, que horror!




De Cobras
http://desenhosallprint.blogspot.com/2010/07/desenho-de-cobra-para-imprimir-e.html

Falando em cobras, eu morro de medo desses bichos. Mas, lembro de João meu mano e eu, sentados na calçada a "mexer" com cobras de duas cabeças com um pedaço de pau... 


Uma vez quando eu estudava na Escola Doméstica (ED), devia ter uns sete anos, eu e uma amiga passeando pelos "matos" (porque na ED tinha uma grande parte que era quase uma fazenda, um sítio...), começamos a apanhar pedaços de pau. Um desses nada mais era do que uma cobra enorme, marrom, parecia mesmo um galho... 


Gritamos, corremos e chamamos "Seu Mano" (que era um velho senhor e empregado antigo da Escola). Não sei se foi nessa sequencia, mas sei que fizemos as três coisas e nunca mais fomos dar esses passeios...


Minha mãe contava que vovô criava cobra lá no sítio deles, e as mandava pro Instituto Butantã. Ainda bem que nunca vi essas tais cobras passeando no telhado da casa do sítio (ou da loja dele, sei lá...).


Também, quando "me entendi" por gente, o sítio já tinha sido vendido a uns parentes, e só íamos lá na época das jabuticabas... Uma delícia! Comer as jabuticabas tiradas dos próprios "pés". Era uma farra! E, sem cobras! Logo, sem medo, claro!




De Pesadelos e de Bruxas e Almas
http://www.todopapas.com.br/pintar/monstros/Fantasma-travieso-104

Eu tinha uns pesadelos recorrentes: Via umas mãos verdes, com manchas marrons e que ao mesmo tempo pareciam sapos, nas janelas. Às vezes eu, ainda nos meus poucos anos de vida, achava que eram reais! Tinha medo de olhar para as janelas quando acordava às noites...


Antes desse pesadelo esquisito, tinha outro também recorrente. Sonhava que uma  bruxa me perseguia pela Rua Afonso Pena, rua paralela à nossa, até em frente a casa da minha vó Lili (mãe de meu pai, e que morreu quando eu tinha três anos). Na época a rua era "de areia". A casa ficava em frente onde é hoje a Banca de Tota.


Pois bem, lá (nos sonhos), no meio da rua, existia uma "barra" de brinquedo, igual a uma que tinha no parquinho da ED. Então eu me pendurava nessa barra, e a bruxa dizia "Ah, Cubos", abria a boca e me pegava. Não me peçam pra explicar, porque não tenho a menor ideia do que isso significava...
Uma barra parecida com a da ED e de meus sonhos/pesadelos

Quando eu entendi que isso era um pesadelo, deixava a bruxa me pegar logo, pois quanto mais cedo ela me pegava, mais rápido eu acordava. A não ser que acordasse pra "dentro" de outro sonho.. Ah! mas aí já é demais... Deixa pra lá...
http://baudaweb.blogspot.com/2010/10/desenhos-e-molde-de-halloween-dia-das.html



Tinha outros pesadelos que até hoje não sei se eram sonhos ou realidade. Umas almas conversavam na porta do meu quarto. Às vezes arrodeavam minha cama. Uma vez, uma tentou me empurrar nas costas e fiquei sem fôlego. A pior coisa era quando ficavam na minha porta, pois me impediam de passar pro quarto da minha mãe...


Meu avô dizia que eu era médium (ele era Espírita) e minha mãe brigava com ele dizendo que isso iria me assustar. Um dia resolvi acabar com essa estória dessas visitas de almas. Me sentei na cama, cruzei as pernas, fechei os olhos e determinadamente disse: "Não me apareçam mais, se aparecerem, aí é que não rezarei pra vocês....". Deu certo. 


Por fim, o pior pesadelo recorrente, era um em que eu estava querendo atravessar uma rua. Eu estava na calçada de um cemitério e queria passar pro outro lado. Todo mundo que estava comigo, cruzava fácil a rua. Eu não conseguia sair do lugar. E, lá vem um enterro... Era horrível!! Esse era demais! Cruzes!


http://artededesenhar.arteblog.com.br/155189/Cemiterio/


Bicho Papão?
http://www.desenhosparacolorir.org/desenhos/desenhos.php?id=8401

A gente precisa ter cuidado com o que diz pras crianças, ou se interessar pelo que elas pensam. Criança, às vezes, têm seus medos, mas não contam... Pois é, uma vez eu desenhei um ladrão. Na minha cabeça, aquilo era um ladrão. Devia ter uns dois ou três anos. Aí me levaram pela primeira vez pro colégio. 


Chegando lá me deparei com o prédio que era a cara do "meu" ladrão. Entre choros, berros e gritos, não quis ficar ali. Nunca mais voltei. Me mudaram de escola... Esse ladrão era na verdade o meu bicho-papão!




De Mortos e Caixões


Não sei se eu tinha medo de gente morta, mas sei que tinha dos caixões. Aí, um dia, estávamos eu e meu mano João na casa de minha avó na Otávio Lamartine. As empregadas de lá nos levaram até a rua Trairi pra ver uma "coisa".


La ficamos esperando... E, de repente sai da casa de frente uma multidão segurando um caixão roxo e preto. Eu, mais rápido do que uma ema selvagem (como dizia meu pai), segurei meu irmão pela mão e disse: "Corra!". Puxando o pobre, que quase era arrastado por mim, chegamos esbaforidos na casa de minha avó. Bati na porta desesperada. Ela abriu e tudo ficou bem. 
http://gartic.uol.com.br/paloma4858/desenho-jogo/caixao

Imaginem, que até quando eu estudava no CIC, e já era adolescente, eu atravessava a rua pra não passar pela calçada de uma funerária... Nem respirava e passava correndo... Assim eu me comportava ao passar em frente aos cemitérios... O que fazem nossos medos inexplicáveis! 


Ah, tenho que contar essa outra, embora que já na minha adolescência (ou perto dela). Tinha um cara que morou na outra "parte" da minha rua e tinha uma funerária. Às vezes a "kombi de defunto", como eu chamava, parava por lá. 


E, como criança/adolescente é "bicho ruim", minhas amigas combinaram de me colocar nessa kombi. Já sabiam do meu pavor, e saíram atrás de mim. Mas, o medo me fez tão forte que consegui correr tanto, me safar delas, e me trancar num banheiro da casa de uma delas! Ufa!


Também lembro de meu pai nos levando pra Faculdade de Odontologia (onde ele era professor) quando faltavam as empregadas... E, de meu irmão, embora mais novo que eu, tentando me fazer medo, me "guiando" até aonde estavam os corpos para aulas de anatomia... Eu corria "léguas"... E olha que esse meu irmão foi aquele que "salvei" do caixão da rua Trairi... Pode?




De Outras Histórias (de outros tipos de medos)

Meu pai também me levava em algumas viagens pelo interior quando ele foi da Secretaria de Educação. Quando ia pra Caicó, lembro que ficava na casa de uma amiga dele. E, eu chorava porque ele ficava num hotel... Sentia falta dele... Tinha medo dele demorar... Aí eu inventava que tava com um cisco no olho... 
Tinha "ciúmes" dele com outras meninas da minha idade. Não gostava quando ele fazia algum gesto meigo com elas ou vice-versa... E ele era muito simpático com todo mundo! Uma vez, uma menina dormiu no colo dele na kombi em que viajávamos. Curti um "ódio" enorme por essa menina durante um tempão... Morria de medo de encontrá-la de novo...

Meu pai, era um ótimo pai! Brincava com a gente, mas, às vezes nos atrapalhávamos com suas brincadeiras. Ele uma vez cantou pra nós, filhos, uma música meio "imoral" (nem tanto!). Achamos "linda" e fomos cantar na porta de casa, na rua... 

Levamos um carão e quase ficamos de castigo... Era uma  música besta, que quase todo mundo sabe: "Era noite de lua, abri a porta e fui (...) na rua... Um guarda ia passando..." Etc e tal. Mas não era pra cantar na rua!
Essas coisas de cantar na rua, também inventamos uma música pra uma de nossas vizinhas , e cantávamos algo assim "Dona Fulana, a chaleira tá sem tampa, chora bebê na rampa.... ". Sem noção essa letra! Só criança mesmo!

Sem noção também, era que passávamos em frente da casa de um cara que era "brabo", e gritávamos "Pé de Guerra"(!!!), e era a maior confusão. Ou n'outra casa que tinha umas pessoas meio obesas e gritávamos "gordas (!!!)", e corríamos. Sem Noção geral. Maldade infantil? Que doidices!!! Embora náo politicamente correto, fazer essas artes era ótimo! "Correr do medo"!


Ah! Antes que eu esqueça, eu não gostava muito de pentear meus cabelos. E aí meu pai me contava uma estória um tanto "arrepiante". Da estória em si, não lembro bem, mas sei da parte que um cachorro já morto e enterrado, com uma voz "fúnebre", e que meu pai imitava, dizia assim: Maria Viloa, já comeu, já bebeu e já se foi deitar... "Maria Viloa" não penteava os cabelos. Eu a imaginava toda arrepiada e aquele voz horrorosa... Corria e pedia pra minha babá me pentear...
Maria Viloa seria assim? http://paranoiva.blogspot.com/2009_10_01_archive.html

Também, vou te contar! Era cada estória de "terror" mesmo. Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão, João e Maria, etc. e etc. e etc. Lobos, gigantes, bruxas... Tem alguma dessas que não mete medo em criança? Mas, que era bom ouvir as estórias, era...

No fundo essas brincadeiras "bestas" (ou até as estórias horripilantes) deveriam ter um certo sentido... Era sentir prazer pela possibilidade de conseguir vencer ou enfrentar o medo? Enfim, de conseguirmos correr e chegar "lá"? "Lá", onde nenhum adulto ia nos pegar, muito menos cobras ou monstros ou fantasmas...

5 comentários:

  1. Morro de inveja(sadia) das pessoas que teem essas lembranças da infância, adolescencia, etc.E a sua é rica, muito rica!!!E isso não tem preço. E o mêdo dos espíritos, ainda tem medo deles? Interessante, porque na prática devíamos ter mais medo dos vivos!!!!Beijos, Laura.

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  2. pois é, acho que hj tenho mais medo de quem quer ser mais "vivo" que os outros hehehehe!!

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  3. Que bicha doida!!! Morri de rir... Tenho um pouco de lembranças de meus medos na infância, mas não tanto.. Adorei essa parte. Imagina até sua carreira, esbaforida, falando rápido sem respirar.... Hahaha!!!

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  4. Maria Ligia (Mara)10 de julho de 2011 17:31

    Cruzes, que meeedo !!!!! Pois é...Esses medos eram comuns na nossa infância. Acho que isso tinha mesmo um pouco a ver com as estórias de bruxa, lobo mau, e outros personagens malvados das estórias infantis. Também tinha as nossas babás, que para nos deter nas traquinagens nos chantageavam com essa de bicho papão: “Lá vem o bicho papão”!
    Ah! Essa da viúva machado era mesmo folclore em nossa cidade. Entretanto, na minha pré- adolescência tive o prazer de conhecer a viúva Machado. Ela era avó de uma amiga minha, com quem fiz amizade quando ela entrou na Escola Doméstica na minha série. A mãe dessa minha amiga ( nora da viúva Machado)era amiga de infância de meu pai. Era uma senhora fantástica, muito simples, não fazia mal nem a uma formiga. Essa estória foi inventada por um de seus empregados que chateou-se com ela por algum motivo e, com certeza, por nenhuma razão saiu inventando essa estória. Como Natal, era uma cidade muito pequena isso espalhou-se rapidamente aos quatro cantos da cidade.
    Ah! Essa da cobra da ED, acho que foi comigo que isso aconteceu. Rsrsrs. Que horror! Lembro desse episódio.

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  5. Mara
    Essa estória da viuva era mesmo falsa, mas qdo éramos pequenos em tudo se acreditava e naquela época tal estória passou a fazer parte da cultura da cidade, e dos nossos medos!
    Qto a cobra, era mesmo c vc! Kkkkk

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